segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Minha vida e os seriados americanos


Quando era adolescente assistia “Barrados no baile” ou “Beverly Hills 90210”, o seriado retratava um grupo de adolescentes com tudo o que diz respeito ao inicio da juventude: conflitos familiares, gravidez na adolescência, drogas, crises de autoestima, inicio da vida amorosa, entre outras coisas comum a essa fase da vida.
Apesar do seriado ser americano, as vivências são universais. Não perdia um episódio, era meu mundinho na telinha da TV. Muito das coisas que aconteciam em minha vida, comigo ou ao meu redor, estavam ali por meio dos personagens.
Um pouco mais tarde, veio “Friends”. O começo da vida adulta e independente; a busca por uma profissão, ter um trabalho para se sustentar, sair da casa dos pais, a batalha por sucesso na carreira e no meio disso talvez encontrar a cara-metade, sempre na companhia de amigos.
Depois foi a vez de “Sex and the City”, tentar ser uma mulher bem resolvida numa metrópole, em meio a trapalhadas amorosas e conflitos com as amigas, buscar o equilíbrio entre carreira e vida social. De um lado a necessidade de ser forte, segura e independente; de outro manter a feminilidade, assumir as fragilidades sem cair no extremo da carência afetiva. Uma corda bamba!
Por último, me diverti vendo o Charlie Harper, um charmoso cafajeste em “Two and Half men”. Apenas para comprovar que cafajeste é sempre cafajeste em qualquer continente.

Hoje não tem nenhum seriado que represente meu estilo de vida. Esses que foram citados estarão em minhas memórias pois foram marcantes. E ao fazer essa retrospectiva vejo o quão importante é abandonar os modelos e para fazer uma história autêntica, a própria história.

domingo, 15 de dezembro de 2013

Questões do Deserto


O deserto é uma região árida, coberta por um manto de areia em que é quase absoluta a ausência de vida, desabitado, vazio ou pouco frequentado, solitário, abandonado.
Essas são algumas das definições de deserto que encontramos nos dicionários, todos sabem o que é um deserto, no entanto para a analogia existencial de deserto faz-se necessário buscar o conceito da palavra.
Na vida passamos por desertos, momentos de privação e solidão, passar pelo deserto é se expor à uma tremenda sensação de ausência, de perda de coisas ou pessoas que nos são valiosas.
O deserto pode ser lugar de depressão também porque lá há solidão e aridez. Os desertos de nossa existência são abrasados pela chama de nossa consciência, sedentos por água que venha saciar a sede da nossa alma, é a prova de nossa fragilidade, da pretensa autossuficiência que se transforma em dependência, fazendo-nos enxergar o essencial.
Desertos são realidades existenciais inegáveis e muitas pessoas se tornam vítimas dos desertos ao longo da vida, e nenhum deserto é eterno, mas o processo é doloroso.
O deserto desvenda a verdade da condição humana, reduzindo o homem ao essencial, às necessidades elementares.
Os questionamentos são uma constante no deserto. Creio que existem três formas de se passar pelo deserto, fazendo as seguintes perguntas:

Por que, Pra quê e Como?

A primeira forma de atravessar é se perguntar “Por que”.
Por que isso está acontecendo comigo? O que eu fiz para merecer isso? “Por que coisas ruins acontecem a pessoas boas”? Por que Deus (se existe) permitiu isso?
O foco está no passado, na relação de causa e efeito, e o mal como consequência de más condutas, “O que eu fiz para merecer isso”?
Como se o deserto fosse exclusivamente fruto de uma ação errada por parte daquele que sofre. Uma tentativa de dar significado as coisas ruins que nos acontecem.
Marcelo Rubens Paiva em seu “Feliz Ano Velho” recorre a esse tipo de argumento:

Ora, eu estava absolutamente maluco naquela cama de hospital. Era inconcebível que as pessoas se preocupassem em se matar, guerrear. A violência do que havia acontecido comigo já era o suficiente. Se 'quem procura, acha', por que eu, que nunca bati em ninguém? Se 'quem fere com ferro, com ferro será ferido', oras! Ainda querem que eu acredite em justiça. Por que esses merdas dos generais, americanos, russos etc. não quebram a quinta cervical?”


Quando li Feliz Ano Velho pela primeira vez, era uma adolescente revoltada com a vida e fazia os mesmos tipos de questionamentos, me identifiquei com o autor. Ao ler pela segunda vez, depois de 20 anos, minhas questões haviam mudado.
A segunda maneira de passar pelo deserto é usar a questão “Pra que”. Agora o foco é no presente.
Pra que eu preciso passar por essa situação? Qual é a lição que devo aprender? O que essa circunstância quer me mostrar?
O deserto aqui tem a perspectiva de utilidade, uma situação ruim que deve ter um ensinamento a ser extraído. Nesse caso, quebramos a cabeça tentando achar a tal da lição, uma outra tentativa de dar sentido ao sofrimento.
A terceira pergunta do deserto é “Como”. O foco da pergunta está no futuro, usando o passado e presente. Essa pergunta é feita depois de passar pelas questões anteriores (Por que/Pra que). Como uma especie de estágio, “Como” é a pergunta que mais se aproxima ao anseio de dar sentido ao sofrimento humano.
Como isso pode contribuir para o meu bem? Como posso usar isso que me aconteceu para o bem de outras pessoas? Como (de que maneira) posso transformar essa experiencia ruim em algo frutífero? Como fazer dessa experiência uma lição para aqueles que me rodeiam? Como fazer do meu deserto um testemunho de esperança, fé e superação?
Passa-se a pensar no deserto não só de forma egoística, mas também comunitária.
As perguntas “Por que” e “Pra que” só enxerga o eu, o “Como” pensa também em atingir os outros, em ser um carta viva que pode influenciar positivamente a vida das pessoas.
Passei pelas três perguntas, e quando cheguei na última, minha conclusão foi que tudo o que já me aconteceu (bom e ruim) deve ser usado para honrar meu Criador. E o modo de fazer isso é transmitir meu testemunho (em ações e palavras), ser uma pequena amostra do Seu cuidado e Seu amor.
Usar minha experiencia de vida, principalmente os desertos para abençoar a vida de outras pessoas. Porque nem só de deserto a vida é feita, e quando não estou no deserto devo ser instrumento de Deus para levar água aos que lá se encontram. O Senhor me concedeu como ferramenta as palavras.
Escrever é a forma que encontrei para anunciar que Deus é bom, e que só é possível sermos transformados e qualificados ao atravessar o deserto quando confiamos Nele.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

“Por que os justos sofrem e os ímpios prosperam?”




Uma questão de longa data, há milênios o homem faz essa pergunta e não sou eu quem irá respondê-la. Muitos livros foram escritos com base nessa questão, além de inúmeras pregações, textos, palestras, convenções etc. Quando me pego pensando nisso ou quando vejo alguém com essa questão, meu foco é o conceito de duas palavras. O que significa sofrer e o que significa prosperar? No decorrer da minha não tão curta, nem tão longa vida, os conceitos tiveram mudanças. Durante muito tempo acreditei que o conceito de prosperidade estava ligado aos bens materiais e sucesso profissional, hoje já não penso assim. Sofrimento pra mim sempre foi algo desprovido de sentido, nunca entendi bem as dores do mundo, e as minhas... Ah como demorei para começar a entender! No entanto descobri que o sofrimento tem duas categorias, aquele que não sabemos o motivo e aquele que tem uma razão de existir. Quando sabemos o motivo da dor e ainda quando desejamos o resultado dessa dor, então o sofrimento é suportável em certo sentido. Deixo um exemplo simples, a dor do parto: uma grande dor, porém com imenso beneficio, o filho.
O conceito de prosperidade interfere muito na modo como lido com o sofrimento. Prosperidade pra mim significa crescer, desenvolver-se, melhorar de condição, ser bem sucedido; então algo que pode ser um sofrimento também pode significar prosperidade, e essa prosperidade nem sempre está ligada ao capital, pode ser uma prosperidade espiritual, relacional, emocional, entre outras. Se acredito que o fruto da dor pode ser um bem, então me considero próspera. Dar significado ao sofrimento é converter a dor em beneficio, não só para si mesmo, mas também aos outros. Mesmo quando não sei as razões do sofrimento, posso usá-lo de forma positiva posteriormente, na minha vida e na vida de outras pessoas.
Enquanto meu foco estava no conceito das duas outras palavras: justo e ímpio, a questão me atormentava. Quem  é realmente justo?  Sem contar que eu caía no equívoco da meritocracia.
Ainda sem saber ao certo a resposta, focar no conceito de sofrimento e prosperidade me ajudou a parar de etiquetar as pessoas em justas e ímpias e também deixar de achar que “a grama do vizinho é mais verde”. Passei a olhar para o que me acontece, tanto exteriormente quanto interiormente.
Então mudo a questão: “Por que eu sofro ou porque eu prospero?” Isso me leva a um exame de consciência, e esse exame me leva a conclusão de que o sofrimento  humaniza e ensina-me a ser solidária e misericordiosa na prosperidade.
Porque creio que dor e alegria, sofrimento e prosperidade são compassos diferentes da mesma música.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Mulher solteira

 
         
   
         Em uma cultura patriarcal em que a mulher, apesar de grandes conquistas, ainda é mal vista quando sozinha, ou seja, no imaginário dos outros (homens e mulheres), há algo de errado conosco porque não temos um marido, namorado, noivo, ou somos vistas como ameaçadoras da estabilidade conjugal. Mulheres com compromisso não veem com bons olhos mulheres avulsas perto de seus companheiros. Homens acham que mulher solteira é sinônimo de disponibilidade total. Afinal a solteira não tem nada a perder, certo? Errado. Tem o seu valor que a sociedade tenta diminuir ao som de “porque continua solteira?” ou “vou te apresentar um amigo”. Encontro às escuras e desconfiança sobre a identidade sexual, são itens da lista de uma solteira. Sem contar a investigação contínua sobre o motivo de não ter um compromisso estável. Como um mistério criminal a ser desvendado, as perguntas são: Já namorou? Porque não casou? Porque não deu certo com fulano? Pretende se casar um dia?
E os comentários: o sicrano combina com você, deveria sair mais para conhecer gente diferente, o amor da sua vida não vai bater na sua porta, blá, blá, blá...
Sinceramente, não me incomodo com isso, acho que já me acostumei. O que incomoda é meu estado civil interferir nas minhas relações pessoais. É não ter espaço na igreja, os raros adultos solteiros são negligenciados. É ver uma (não tão) amiga ficar com ciúmes de mim. É perceber que os amigos do sexo masculino me tratam de forma diferente na frente das namoradas/esposas, porque sou solteira e, portanto uma ameaça. É ver um homem considerar que estou paquerando ele, quando estou sendo apenas gentil e simpática.
         Pior do que estar solteira é ser alvo do pré conceito da sociedade. É as pessoas acharem que meu maior problema é meu estado civil quando tenho tantas  dificuldades na vida.
Não me deixo vitimar por esse preconceito porque tenho total consciência que minha condição de solteira é uma escolha exclusivamente minha. Há algum tempo, escolhi ter um tipo de relacionamento que hoje é muito raro, tenho um propósito, um compromisso de só me envolver com alguém que esteja alinhado com esse propósito.
         Enquanto esse momento não chega vou continuar solteira de forma tranquila, em paz, porque confio plenamente nos planos Dele.


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Esperança








Acredito no amor, na redenção e salvação
Já fui uma poliana, agora simplesmente cristina
Já que tenho um Rei, escolhi também uma rainha
Por causa dela, suporto as dores do mundo
É a filha da fé
É herança do meu Pai:
Esperança.

domingo, 3 de novembro de 2013

O acidente



         O meu primeiro acidente mudou minha vida, mas o último me transformou de uma maneira singular. Eu chamo esse período de “Minha Cabana” em alusão ao livro de Willian Paul Young, e a Grande Tristeza é a protagonista da minha Cabana.
     Demorei um ano e meio para conseguir sair da Cabana, deixar a Grande Tristeza partir, os desdobramentos do acidente foram devastadores, por hora vou apenas contar como foi o acidente.
Era uma segunda-feira, saí de casa por volta das 6:30 h da manhã como de costume para trabalhar, meu trajeto incluía diversas ruas com grande movimento, também passava por uma estrada que liga a minha cidade à São Paulo.
      Andava no corredor como todos os motociclistas, desta vez estava sozinha no corredor, ninguém na frente ou atrás de mim, o trânsito estava muito intenso, normal para o horário, as duas faixas praticamente paradas, eu seguia no corredor, minha velocidade média era entre 70 e 80 Km/h, já que o limite na rodovia era de 90/110 Km/h, portanto não estava correndo como alguns disseram, muito menos acima da velocidade permitida. Era um velocidade normal para a rodovia e o trânsito, porém uma velocidade alta para imprevistos.
      Um carro saiu repentinamente de sua faixa para entrar na outra, não havia espaço para ele na outra faixa, o carro ficou atravessado no corredor, quando percebi já não dava tempo de frear, a reação automática foi tentar contornar o veículo pela parte de trás para voltar ao corredor. Nessa tentativa de retornar ao corredor bati no veículo seguinte pois não havia nenhum espaço para passar. Ao bater no veiculo, literalmente voei, fui jogada da moto, caí alguns metros adiante, o capacete saiu da minha cabeça enquanto voava, bati com força no asfalto.
      Não me recordo do exato momento da batida, acho que é normal, li em algum lugar que essa amnésia é uma defesa da mente. Não lembramos aquilo que não podemos suportar, assim diz a psicologia.
      Assim que dei por mim, estava no chão, literalmente quebrada, a reação automática nesses casos é tentar se levantar, mas eu não conseguia me mexer. Um monte de pessoas à minha volta falando comigo ao mesmo tempo, parecia que eu estava fora de mim. Um motociclista veio falar comigo, colocou um papel dentro do bolso da minha jaqueta e disse que era a placa do carro que me fechou, uma atitude solidária.
      Havia uma policial com uma prancheta anotando meus dados, acho que era um pré Boletim de Ocorrência, perguntou meu nome completo, endereço e outros dados pessoais, certificando-se de que eu estava consciente e tentando me manter acordada. Era uma situação estranha, estatelada no asfalto, quebrada e respondendo dados pessoais, enfim, era o trabalho dela. Um policial rodoviário chegou em mim e perguntou: quem tirou o capacete da sua cabeça? Eu respondi: ninguém, mas não consegui explicar o motivo de estar caída sem capacete. Ele também perguntou se eu gostaria de avisar, ligar para alguém, ele estava com o meu celular na mão, enquanto isso ouvia as pessoas falarem sobre a chamada do resgate e sobre as causas do acidente. Respondi ao policial: liga para o Paulo Rodolfo, era o nome do gerente de onde trabalhava, o policial tentou ligar, o Paulo não atendeu, então disse: tenta o Paulo César (um colega de trabalho) e avisa que não vou poder ir trabalhar hoje. Dá para acreditar que numa situação como essa eu pensei em avisar a empresa que faltaria ao trabalho? Sou muito "pelega"!
      Poucos minutos depois o resgate chega, era o carro dos bombeiros, quando eles me pegaram para me colocar na maca, a dor foi tão intensa que nem consigo descrever, gritei muito, eram gritos tão fortes que acho que agredi os ouvidos dos socorristas, eles me pediram para não gritar e fazer um esforço para dizer onde era a dor, eles ainda não sabiam o que havia quebrado, eu não conseguia falar, só dor, só gritos, foi assim que eu entrei no carro do resgate, gritando de dor e sem movimentos.

         Assim que cheguei ao hospital, fui levada imediatamente para a sala de cirurgia, apaguei. Acordei horas depois, sem saber ao certo meu estado, só o que sabia é que não conseguia me mexer. Ainda me lembro do olhar de pena das enfermeiras: "coitada, tão nova!". Os primeiros dias foram de absoluta dúvida, nem os médicos sabiam se eu voltaria a andar, havia batido a coluna e as consequências só seriam medidas depois de exames minuciosos. A dor era tanta que não conseguia pensar direito sobre a possibilidade de ficar para sempre numa cama/cadeira de rodas. Só agora vejo que foi uma dádiva eu não conseguir pensar num possível futuro como tetraplégica. A dor de certa forma me anestesiou e dias depois recebo a noticia de que com muita fisioterapia eu voltaria a andar. E foi assim os meses seguintes... mas isso é assunto para outra postagem.

Obs: um pequeno trecho de um possível futuro livro.

Como devemos amar?





          “Ame o seu próximo como a si mesmo” ou “Ame o seu próximo como Cristo vos amou” ?
            Ambos mandamentos constam nas Sagradas Escrituras. O primeiro  mandamento só é possível quando nos reconhecemos no outro.
            A maturidade espiritual implica em olhar o próximo não como um outro em oposição, mas como um espelho do eu, com a consciência de que 'ele sou eu'.
            Acredito que essa é a essência  de uma espiritualidade sadia, pois se sou humano tenho as mesmas fraquezas, fazemos parte da mesma humanidade, e tudo o que acontece ao outro pode me acontecer também.
        Quando meus semelhantes são diminuídos, humilhados, oprimidos, sou eu também. Quando meus semelhantes são honrados  e respeitados  em sua dignidade,  sou eu.
       Porém muitas pessoas ainda sem a consciência de sua Imago Dei, acaba por aplicar o primeiro mandamento com base em sua própria medida, transferindo para o outro seus valores, e amando o próximo conforme seus próprios critérios do que é bom ou mal, pensando só no que lhe é importante, sem levar em consideração as diferenças e a subjetividade humana.
        Então o mandamento de “ame o seu próximo como a si mesmo” deve ser  na verdade  “ame seu próximo como Cristo vos amou” , para que a modelo de amor seja o de Cristo, não o humano.
       Creio que o mandamento foi modificado para que não corramos o risco de “amar o próximo como a si  mesmo” seja algo egoísta, pois se usarmos somente a nossa medida para amar, será a medida com falhas do caráter egocêntrico e intrínseco ao ser humano.
       Mas Cristo nos amou, doando-se, sofrendo as nossas dores para que possamos também sofrer as dores do próximo, levando em consideração cada um de nós. Porque apesar de diferentes somos feitos da mesma matéria. Singulares em suas histórias e iguais no projeto original.
         O que dói no outro fere o meu coração, e sei  que não estou isenta de ser atingida pelo o que acontece ao outro. Que o “amar ao próximo como a si mesmo” seja conforme  a medida e o modelo de Cristo.

Ter bondade é ter coragem


             Hitler é um símbolo de maldade no mundo todo, qualquer pessoa não nazista concorda que ele foi longe demais em seus ideais. Exatamente por isso, por ser uma figura tão marcada pelo mal,  gosto de usá-lo como exemplo. Quando se pensa em mal, logo se pensa nas grandes atrocidades cometidas, nos crimes contra a humanidade, tal como Hitler fez. Mas nos esquecemos que como todo ser humano, ele possuía defeitos e também qualidades. Sim, ele tinha qualidades, senão como seria possível ser líder de um genocídio tão devastador? Ele tinha uma boa retórica, era bom argumentador, bom articulador político, o que ajudou a influenciar muitas pessoas para a sua causa.
            O que pretendo dizer é que  Hitler não fez uma guerra sozinho,  muitas pessoas  compactuaram  com suas ações, ajudando-o em seus objetivos e também  os omissos, aqueles que nada fizeram para impedir a matança de outros seres humanos. O que dizer dessas pessoas? Eram boas ou más?
            A questão de bondade/maldade é  subjetiva, existem  pessoas que se consideram boas porque  cuidam de seus pais idosos, outros acham que isso é pura obrigação. Então como  medir o mal/bem?
            O nazismo gerou muita discussão acerca do mal. Temos diversos livros escritos por aqueles que viveram  a guerra, Viktor  Frankl, Anne Frank e Hannah Arendt, só para citar alguns. Muitos filmes também foram feitos para retratar esse episódio dantesco da história, entre os mais famosos está “A Lista de Schindler".
            A reprodução do nazismo em filmes e livros, coloca em evidência os (?) coadjuvantes do genocídio. Pessoas comuns,  que ajudaram o ditador e as que se recusaram a ser cúmplices.
            Foram pessoas que de forma anônima e por gestos pequenos e simples fizeram toda a diferença entre a vida e a morte de seres humanos.
            Aqueles que salvaram vidas, provavelmente, foram pessoas que tiveram coragem de se opor  ao grande ditador, sentiram  compaixão pelos seus semelhantes e arriscaram-se para ajudar aos judeus perseguidos.
            Diante de um ditador genocida como Hitler, qualquer atitude suspeita por menor que fosse seria  considerado traição e portanto deveria ser punida com a morte.
             O mal e o bem tem muitas faces, nos menores gestos, nas pequenas oportunidades eles se revelam.
            Ser mau  não é ser como Hitler, mas também como qualquer um que diante do mal, omite-se. E quantas pequenas omissões não fazemos em nosso dia a dia, quantas pequenas maldades cometemos?
            Ser bom é ter coragem para se opor ao mal, e essa coragem vem da compaixão.
            Repetindo as palavras do poeta: 

            “ E há tempos nem os santos têm ao certo a medida da maldade...
              E há tempos o encanto está ausente...
             Compaixão é fortaleza
             Ter bondade é ter coragem...”

Amor é um verbo






Ser cristão não é seguir um conjunto de dogmas e regras religiosas.
Ser cristão é reconhecer a pessoa de Jesus como centro da sua existência.
Ser cristão não depende de ser convencido pelo que dizem os religiosos.
Ser cristão começa quando se tem um encontro com o Cristo ressurreto.
Eu posso até duvidar do que me dizem, mas quando se tem uma experiência com o Eterno, você se enxerga diante do Absoluto, diante da inevitável constatação de que "Ele vive ".
Isso produz uma profunda e radical inversão da percepção de tudo.
O mundo até então construído a base de teorias fica caótico.
“Ver” Deus na pessoa de Jesus nos torna livres para viver uma fé louca aos olhos do mundo
A fé nos torna livres da loucura do mundo, a lógica é invertida.
Porque ter fé é ver o Invisível, é ter a firme convicção de que o amor é um verbo.
E o verbo é uma pessoa: Jesus Cristo  

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Exílio





             Após um grave acidente sofri um exílio, fiquei ausente de mim.
         Fisicamente estava completamente imobilizada, principalmente nos primeiros dias, só mexia os olhos. Emocionalmente nem sei, não tinha noção do estrago feito ainda. Não dormia e sentia dores o tempo todo. Quando, após uma semana, comecei a dormir sonhei que andava, não acreditava nisso, até acontecer comigo, depois fui pesquisar. Em entrevista, a deputada Mara Gabrilli relatou essa experiência e também outras pessoas que sofreram o mesmo tipo de trauma.
        Uma forte sensação de não pertencer a mim se instaurou desde os primeiros dias.
        Minha mente esqueceu quem eu era.
       Minha vida parecia como um quebra cabeça desmontado, com peças espalhadas, algumas faltantes. Precisava me remontar, peça por peça. De que forma e por onde começar?
    O acidente havia chacoalhado todas as informações. Conhecimentos, palavras, lembranças, pessoas e tudo o mais que fazia parte da minha vida, parecia como um filme, estavam ali, entretanto o meu cérebro não fazia as conexões necessárias para dar sentido às informações. Mesmo após a recuperação física, vivia no automático; trabalhava, estudava, me relacionava, mas era como se não fosse eu que estivesse ali, estava assistindo a minha própria vida.
       Eu tinha a sensação de saber que sabia, mas não conseguia dar sentido.
      Perguntava todos os dias: “Meu Deus, o que vai ser de mim? Nunca mais voltarei a ser eu mesma? Quem me roubou de mim?"
     Não conseguia falar sobre isso com ninguém, aprendi na faculdade que aquilo que não tem nome, não existe. Como falar de algo que eu não conseguia nomear, identificar? Era como se não existisse mesmo, mas existia. Estava ali o tempo todo. Uma falta, uma ausência desesperadora de mim.

            “Oh. pedaço de mim,
             Oh, pedaço arrancado de mim...
 Oh, metade exilada de mim
 Oh, pedaço de mim
 Oh, metade amputada de mim... ”
          
           
                        (Chico Buarque)

      Um período na minha vida em que a única diferença entre eu e uma pessoa que perdeu a memória, é que apesar de não saber quem eu era, sabia que não tinha perdido a memória. Eu lembrava de tudo, mas era como se não pertencesse a mim, a minha vida, como se tudo que estivesse acontecendo fosse com outra pessoa e eu estava apenas assistindo. Eu tinha sido arrancada da minha vida, da minha história.
   Algumas coisas serviram de terapia; livros, músicas e qualquer coisa que estivesse relacionada com minha recente experiência. Reli Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva, assisti ao filme Menina de Ouro, assisti várias vezes Frida e li reportagens e artigos sobre o assunto. 
      Mesmo não ficando paralitica, tinha a sensação de estar aleijada. Estava amputada, faltava uma parte de mim, e não sabia como recuperar. O que mais podia fazer a não ser orar? Clamar ao Deus da minha salvação?
    Foi quando eu fiz da música “Restitui” uma das minhas inúmeras orações:

           
“Os planos que foram embora
O sonho que se perdeu
O que era festa e agora
É luto do que já morreu
Não podes pensar que este é teu fim
Não é o que Deus planejou
Levante-se ... erga um clamor:
Restitui, eu quero de volta o que é meu
Sara-me, e põe teu azeite em minha dor
Restitui, e leva-me às águas tranquilas
Lava-me, e refrigera minh'alma
Restitui
Restitui... eu quero de volta o que é meu...”

Orava para ser devolvida a mim, para ser restituída de meu ser.
     Foi uma fase de intenso sofrimento e aprendizado, hoje estou recuperada mais emocionalmente do que fisicamente.
            Força de vontade? Um pouco. Destino? Não creio. Milagre? De certa forma sim.
       O fato é que restabeleci o controle da minha vida, voltei a andar, recuperei minha identidade, mas inevitavelmente uma parte se foi, como um casulo que precisava sair para dar lugar às asas.
      Aprendi com esse exílio que nada, absolutamente nada, é definitivamente nosso. Nem mesmo a subjetividade, a pessoalidade, lembranças, memórias, identidade, vivências; tudo isso um dia a gente pode perder, e de um instante ao outro toda sua vida muda.
            São nesses momentos que constatamos que somos poeira